
Setembro Amarelo é um chamamento à vida, um alerta para a urgência de acolher quem sofre em silêncio. No Brasil, cerca de 38 pessoas cometem suicídio por dia. Só em 2023, o país registrou mais de 16 mil casos, o que representa uma taxa de aproximadamente 7,9 suicídios por 100 mil habitantes. Entre os jovens, a situação é ainda mais alarmante: o suicídio já aparece como a terceira maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Esses números nos convocam a escutar o que muitas vezes é dito silenciosamente: a maioria das pessoas que tira a própria vida não deseja morrer, mas sim cessar um sofrimento intolerável. É como arrancar o próprio braço por causa de uma alergia intensa: não se quer a morte do braço, mas que a dor acabe.
Na clínica são frequentes frases que evidenciam essa ambivalência entre vida e morte: “eu vou morrer e aí eles vão me dar valor”, “eu vou morrer e aí ele vai voltar para ficar com a nossa família”, “eu vou morrer e aí vou conseguir lidar melhor com aquilo que sinto”. O que se anuncia nessas falas não é um desejo de aniquilação, mas uma esperança paradoxal de vida: a morte é vista como ato que poderia resolver o sofrimento, como se depois dela ainda fosse possível existir, reconstruir, ser reconhecido. Há, nesse discurso, a tentativa de encontrar alívio, não o fim da própria história.
Na perspectiva psicanalítica, entende-se que o ato suicida não é uma escolha racional ou plenamente consciente. Trata-se de uma coexistência paradoxal: desejo de fugir da dor de viver e desejo de viver ao mesmo tempo. Esses dois polos orbitam o sujeito até um ponto de ruptura. O suicídio, então, não é decisão fria de morrer, mas uma estratégia extrema de lidar com a angústia. É uma resposta desesperada a uma dor que parece sem saída.
É justamente nesse ponto que a escuta psicanalítica (ou a escuta, simplesmente) se mostra tão necessária. Ela oferece um espaço em que esse grito por ajuda pode ser acolhido e transformado em palavra. Permite que o sujeito reconheça sua dor como real, mas também como algo que pode ser elaborado. Ao devolver, ainda que lentamente, o sentido de existir, a psicanálise ajuda a restabelecer laços simbólicos com a vida que estavam rompidos. Nesse processo, não há receitas prontas, nem respostas rápidas, mas o acompanhamento singular de cada sujeito, em sua dor e em sua potência.
A campanha Setembro Amarelo nos convoca, portanto, a romper o silêncio. É preciso fortalecer políticas públicas, campanhas de conscientização e, sobretudo, abrir espaços de escuta. Precisamos permitir que as pessoas digam o que sentem sem medo de julgamento ou ridicularização. A morte, tantas vezes anunciada, não é o fim desejado, mas apenas o fim da dor. Que possamos olhar para o outro com mais cuidado, mais presença e mais disponibilidade para ouvir. Escutar, muitas vezes, é o que salva.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










