
Há algo profundamente inquietante – e ao mesmo tempo libertador – na constatação de que o tempo não nos pertence.
Inventamos o relógio, criamos calendários, dividimos dias em minutos e minutos em segundos, como se assim pudéssemos domesticar esse fluxo indomável. Mas, como lembra Derrida, o tempo é sempre um evento: algo que acontece, irrompe, escapa. Não é um objeto que seguramos; é uma experiência que nos atravessa.
E é por isso que às vezes ele corre. Em outros momentos, arrasta. Há dias que duram semanas e semanas que passam como um suspiro. Não há coerência mensurável — apenas vivência. A morte, por exemplo, é talvez a prova mais dura dessa falta de controle: quando o nosso tempo acaba, raramente fomos nós que escolhemos. A finitude nos lembra, com certa brutalidade, que não dominamos aquilo que tanto tentamos padronizar.
Mas então… como aproveitar o tempo que temos, se não sabemos quanto é?
O discurso social tenta nos oferecer uma resposta pronta: aproveitar seria fazer — produzir, viajar, comprar, mostrar. O tempo, nessa lógica capitalista, vira combustível para performances e expectativas.
Aproveitar ao máximo vira quase uma obrigação, como se viver fosse correr contra um cronômetro invisível. Mas afinal, qual é a velocidade necessária? E quem disse que pressa é sinônimo de vida?
Penso nestas linhas enquanto minha filha de dois anos dorme nos meus braços. E é curioso perceber como o tempo muda quando mudamos com ele. Hoje, com menos urgência e mais presença, me permito longos minutos apenas observando minha filha brincar, testar, se arriscar, descobrir o mundo à sua maneira.
É nesse intervalo — aparentemente simples e pequeno — que reencontro a minha própria criança. Há algo de profundamente psicanalítico nisso: numa espécie de relação especular, a criança externa convoca a criança interna a brincar de novo, a descansar do futuro, a existir no agora.
E enquanto buscamos entender e controlar o incontrolável (o tempo), ainda há nosso inconsciente, que desconhece relógios. O inconsciente é atemporal: nele convivem ontem, hoje e amanhã sem fronteiras rígidas. Talvez por isso as crianças transitem com tanta naturalidade por esses tempos diferentes. Elas vão e voltam, lembram e inventam, vivem e revivem. Brincam com o tempo como quem molda argila — sem medo de perder, sem pressa de ir embora.
Talvez o maior aprendizado seja esse: o tempo que importa não é o que medimos, mas o que nos atravessa. É o tempo que acontece — e que, se permitirmos, nos transforma.
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- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










