Quando viver demais toca a morte

Quando viver demais toca a morte

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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Imagem meramente ilustrativa. Foto: Crisquira por Pixabay

A morte de uma jovem durante um salto de rope jump no interior de São Paulo provocou comoção e perplexidade. A estudante de 21 anos participava de uma atividade de aventura quando, por uma falha humana, foi lançada de uma ponte sem estar conectada ao equipamento de segurança. O que deveria ser uma experiência de intensa emoção transformou-se em tragédia.

Diante de acontecimentos como esse, costumamos nos perguntar: o que leva alguém a buscar experiências tão extremas? O que procuramos quando desafiamos os limites do corpo, da velocidade, da altura ou do perigo?

A resposta mais imediata parece simples: procuramos sentir-nos vivos.

Mas a psicanálise nos convida a ir um pouco além.

Em 1920, Freud apresentou uma das ideias mais intrigantes de sua obra: a existência de duas forças fundamentais que atravessam a vida psíquica. De um lado, as pulsões de vida, que ele chamou de Eros. São elas que nos impulsionam a criar vínculos, amar, construir, preservar a vida e buscar prazer. De outro, as pulsões de morte, que operam em sentido contrário, conduzindo à destruição, à repetição e à tendência de retorno a um estado de menor tensão.

Não se trata de um desejo consciente de morrer. A pulsão de morte é mais sutil. Ela aparece, muitas vezes, quando insistimos em ultrapassar limites, repetimos comportamentos que nos fazem mal ou nos aproximamos perigosamente de situações que colocam nossa integridade em risco.

É justamente aí que a reflexão fica interessante.

Porque muitas experiências que associamos à sensação máxima de vida carregam, paradoxalmente, uma proximidade com a morte. Não por acaso, tantas pessoas descrevem esportes radicais, altas velocidades ou desafios extremos como momentos de intensidade absoluta. Há algo fascinante na experiência de chegar perto de um limite.

Jacques Lacan aprofundou essa discussão ao desenvolver o conceito de gozo. Diferentemente do prazer, que encontra limites e tende ao equilíbrio, o gozo é aquilo que ultrapassa a medida. É a busca de uma satisfação que continua mesmo quando já produz sofrimento. O gozo não respeita o bem-estar do sujeito. Ele insiste.

Por isso Lacan dizia que o gozo possui uma relação íntima com a morte. Não porque o sujeito queira morrer, mas porque existe algo na condição humana que frequentemente nos empurra para além do que nos faz bem.

Talvez seja essa uma das grandes contradições da existência: às vezes, na tentativa de sentir a vida em sua máxima intensidade, nos aproximamos de experiências que flertam com a destruição.

Mas a pulsão de morte não aparece apenas nos grandes acontecimentos que ocupam as manchetes. Ela também pode estar presente nas pequenas escolhas cotidianas.

Quando adiamos indefinidamente um tratamento importante. Quando negligenciamos cuidados básicos com a saúde. Quando permanecemos em relações que nos machucam. Quando repetimos comportamentos que sabemos prejudiciais. Quando insistimos em excessos que, pouco a pouco, cobram seu preço.

Essas situações não costumam chamar atenção como um salto de uma ponte ou uma corrida em alta velocidade. São silenciosas. Discretas. Muitas vezes socialmente aceitas.

Mas talvez sejam justamente elas que nos aproximem da pergunta mais importante.

Onde, em nossa vida, estamos escolhendo aquilo que nos faz viver? E onde estamos insistindo em algo que nos afasta de nós mesmos?

A tragédia que chocou o país nos lembra da fragilidade da vida. Mas também nos convida a olhar para as formas, grandes e pequenas, pelas quais lidamos diariamente com nossos limites.

Porque viver não é apenas buscar intensidade. Viver é também saber cuidar daquilo que nos mantém vivos.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

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