Quando os números gritam: feminicídio, Estado e educação

Quando os números gritam: feminicídio, Estado e educação

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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Imagem meramente ilustrativa. Foto: Tumisu por Pixabay

Há números que não são apenas estatísticas. Eles gritam. Denunciam. Convocam.

Falar sobre feminicídio no Brasil é falar sobre um projeto de morte que se sustenta na desigualdade de gênero, no machismo estrutural e na naturalização da violência contra as mulheres.

No Brasil, mais de 1.400 mulheres são assassinadas todos os anos por serem mulheres. Em sua maioria, os crimes acontecem dentro de casa e são cometidos por homens que dizem amar: companheiros, ex-companheiros, maridos. O dado se repete ano após ano, revelando não um acaso, mas um padrão.

No Rio Grande do Sul, o cenário também é alarmante. O estado figura entre os que apresentam crescimento nos índices de feminicídio, com mulheres mortas após um histórico conhecido de ameaças, agressões e pedidos de ajuda que não foram suficientemente escutados. Cada caso carrega falhas múltiplas: da rede de proteção, do Estado, da sociedade e da cultura, que insiste em silenciar a violência doméstica como “problema privado”.

Recentemente, o presidente Lula afirmou, em discurso público, que o combate ao feminicídio precisa ser prioridade, defendendo a ampliação de políticas públicas de proteção, cuidado e prevenção da violência contra as mulheres. Essa fala é importante. Nomear o problema é um passo político e simbólico fundamental. Políticas públicas salvam vidas: casas de acolhimento, delegacias especializadas, medidas protetivas, acesso à justiça, suporte psicológico e social.

Mas é preciso dizer, com a mesma clareza: isso não basta.

Do ponto de vista psicanalítico, a violência de gênero não nasce no ato final do assassinato. Ela se constrói muito antes, na forma como educamos, silenciamos, normalizamos. Na permissividade cultural com o controle, o ciúme, a posse. Na ideia ainda tão presente de que o corpo e a vida das mulheres são território de domínio.

Por isso, se há algo que está ao alcance de cada um de nós, aqui e agora, é a educação.

Educar meninas para que reconheçam a violência desde seus primeiros sinais. Para que saibam que amor não dói, não ameaça, não controla. Para que aprendam a confiar em seus limites e em sua palavra.

Educar meninos para que não usem a violência como linguagem emocional. Para que aprendam a lidar com frustração, perda, raiva e desejo sem transformar o outro em objeto. Para que entendam que respeito não é concessão, é base.

A psicanálise nos ensina que o sujeito se forma na relação com o outro e com a lei simbólica. Uma sociedade que falha em transmitir limites, responsabilidade e alteridade produz sujeitos autorizados a destruir. E uma cultura que relativiza a violência contra as mulheres adoece a todos.

O enfrentamento ao feminicídio exige Estado, sim. Exige políticas públicas contínuas, investimento e compromisso. Mas exige também um trabalho cotidiano e persistente: mudar a forma como educamos, escutamos e nos posicionamos diante da violência.

Enquanto tratarmos o feminicídio como exceção (e não como expressão extrema de uma lógica estrutural) seguiremos contando corpos. E cada número seguirá sendo um grito que não podemos mais fingir não ouvir.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

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