Quando o preconceito veste a camisa, e o futebol se cala

Quando o preconceito veste a camisa, e o futebol se cala

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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Imagem meramente ilustrativa. Foto: Franco Monsalvo / Pexels

O futebol, para muitos, espaço de paixão, emoção e celebração coletiva, continua funcionando como palco de reforço de estereótipos danosos. O episódio recente envolvendo Abel Braga, e a sua desastrosa tentativa de retratação, escancara como a homofobia segue naturalizada nos gramados e na fala cotidiana. Ao ser apresentado como novo treinador do Sport Club Internacional, ele afirmou: “Eu não quero meu time jogando com camisa rosa, parece time de viado.”

Essa declaração, num momento público, com microfone aberto, diante de jornalistas e torcedores, revela como a homofobia é tratada com naturalidade: como “brincadeira”, “malandragem”, algo supostamente leve. Enquanto descrevia a cor rosa e a homossexualidade como “passível de vergonha” para um time de futebol, ele tentava “relaxar” o grupo, como se ofender ou excluir fosse uma forma aceitável de “unir a turma”.

Na mesma noite, diante da repercussão, Abel Braga fez uma retratação pública, dizendo: “Reconheço que não fiz uma colocação boa sobre a cor rosa durante a minha coletiva. Antes que isso se prolifere, peço desculpas. Cores não definem gêneros. O que define é caráter.”

Mas a retratação, mais do que reparar, expôs a estrutura do preconceito: ao desculpar-se “pela cor”, e não pelo insulto, ele manteve a sutileza da intolerância, como se o problema fosse apenas aparência ou gosto de cor, e não a violenta associação entre homossexualidade e “fraqueza”, “menos masculinidade”.

Essa lógica opressora não é isolada: faz parte da mesma matriz de pensamento que historicamente coloca as mulheres no lugar da fragilidade. O imaginário que associa o “gay” à figura feminina, presumindo dele passividade, vulnerabilidade, inferioridade. E isso reverbera não só em insultos ou piadas, mas na violência contra mulheres, contra pessoas LGBTQIAPN+, contra qualquer corpo que se desvie da norma que privilegia “força”, “virilidade”, “dominação”.

Quando olhamos para os dados sociais, o alto índice de feminicídios, de violência contra mulheres, de transfobia, de agressões motivadas por ódio, percebemos o quanto esse imaginário funciona como combustível simbólico e real para atrocidades. A ideia de que mulheres, gays, minorias sejam suscetíveis à “fraqueza” legitima a violência como instrumento de poder, de controle, de afirmação da própria insegurança.

A verdade é que a fragilidade não está em quem assume sua identidade, sua sexualidade, sua expressão. A fragilidade está naquele que não consegue viver sem humilhar, agredir, excluir, sem dominar, bater, violentar ou matar quem considera “inferior”. O problema nunca foi a cor de uma camiseta. O problema é o medo, a insegurança, o preconceito que tenta definir pessoas como “menos do que”, e que justifica, por dentro dessas ideias, a violência contra o diferente.

Por isso discursos como o de Abel Braga não podem passar batidos. Eles precisam ser denunciados, debatidos, rechaçados, não apenas como “erro de linguagem”, mas como manifestações de um sistema opressor enraizado. O futebol, com sua enorme visibilidade, carrega uma responsabilidade simbólica: não pode ser palco de naturalização da homofobia, ou da misoginia, da transfobia, do racismo.

Ser mulher, ser negro, ser homossexual, ser trans (ou pertencer a qualquer grupo historicamente violentado) está longe de ser fragilidade: é existência. É força. É ser resistência, persistência e luta, construindo dias melhores, mesmo quando mundos inteiros tentam calar.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

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