Quando o perigo mora ao lado: 8 de março e as violências que se escondem na confiança

Quando o perigo mora ao lado: 8 de março e as violências que se escondem na confiança

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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O sinal “X” feito com batom vermelho (ou qualquer outro material) na palma da mão ou em um pedaço de papel, o que for mais fácil, permite que a pessoa treinada reconheça que aquela mulher foi vítima de violência doméstica e, assim, acione a Polícia Militar. Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil / Arquivo

No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, o 8 de março, somos novamente atravessadas por uma notícia dura: mais um caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. A indignação toma conta das redes, as manchetes se multiplicam, e por alguns dias o horror vira assunto público. Depois, como tantas vezes, o silêncio volta a se instalar — até a próxima violência.

Mas há algo que insiste em nos convocar à reflexão: quem é o agressor? Na maioria das vezes, não é um estranho escondido na esquina escura. É alguém próximo. Um vizinho. Um colega. Um amigo da família. Um parceiro. Alguém que se apresenta sob a máscara da confiança.

A fantasia social do “monstro desconhecido” nos protege da angústia de admitir que a violência mora dentro das relações cotidianas. E isso é insuportável. Porque nos obriga a olhar para dentro de casa — e para dentro de nós.

A confiança traída e o pacto narcísico do silêncio

Na clínica psicanalítica, a confiança é o chão sobre o qual o sujeito se constitui. Desde cedo, dependemos de um outro que nos acolha, nos nomeie, nos reconheça. Quando esse outro — que deveria proteger — invade, abusa ou violenta, o trauma não é apenas físico. Ele é estrutural. Ele atinge o laço, a palavra, o sentido.

É por isso que tantos casos envolvem pessoas conhecidas. O agressor se apoia na relação de confiança para atravessar limites. E depois, muitas vezes, se apoia no descrédito social da vítima para permanecer impune.

Não é à toa que ainda hoje vemos circular listas informais de profissionais denunciados por abuso — inclusive psicanalistas. A própria área que se propõe a escutar o sofrimento humano não está imune à perversão do poder. Quando um terapeuta abusa de uma paciente, o que está em jogo é a instrumentalização da transferência, conceito central da psicanálise formulado por Sigmund Freud.

A transferência é a confiança que o paciente deposita no analista; transformá-la em terreno de exploração é uma violência ética e subjetiva profunda. Isso nos mostra algo incômodo: o problema não é apenas individual. É estrutural.

E podemos pensar ainda mais longe (nem tanto)

Racismo, machismo, patriarcado, educação tradicional autoritária. À primeira vista, parecem temas distintos. Mas todos nascem de uma mesma lógica: a naturalização do poder de uns sobre os outros.

O patriarcado ensina que o corpo da mulher é território disponível.

O racismo define quais corpos são mais violáveis e menos dignos de proteção.

A educação tradicional baseada no medo ensina obediência, não autonomia. O que une tudo isso é a desigualdade violenta das relações.

Na psicanálise, falamos da dimensão do gozo ligada ao exercício de poder, uma satisfação que não passa pelo encontro, mas pela dominação. Quando a cultura legitima hierarquias rígidas, ela oferece terreno fértil para que essa lógica se reproduza nas relações íntimas.

Não se trata de patologizar todos os homens, nem de reduzir a complexidade social a um único fator. Trata-se de reconhecer que vivemos em uma estrutura que historicamente autoriza o controle do corpo e da voz das mulheres (e “minorias”). E que isso não é “exceção”. É regra.

O 8 de março não é sobre flores

O Dia Internacional da Mulher não nasceu como data comercial. Ele nasce da luta por direitos, por dignidade, por condições mínimas de existência. Lembrar dessa origem é fundamental quando olhamos para os dados de violência e para os casos que se repetem.

Falar de estupro coletivo é falar de cultura. Falar de abuso em relações de confiança é falar de ética. Falar de racismo e machismo é falar de estrutura de poder.

Quem é o agressor? Na maioria das vezes, quem está perto. E isso nos obriga a rever a forma como educamos nossos filhos, como ensinamos consentimento, como lidamos com a frustração masculina, como reagimos quando uma mulher denuncia. Não basta punir depois. É preciso transformar antes.

E que possamos sustentar o desconforto de olhar para as relações desiguais que atravessam nossa sociedade. E que possamos, sobretudo, escutar, de verdade, as mulheres e meninas que falam. Porque a luta por respeito começa quando rompemos o silêncio.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

 

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