
Um bebê nasce e é imediatamente envolvido por colo, abraço, cheiro, pele com pele. Esse contato é a primeira linguagem de amor e cuidado. Mas, conforme a criança cresce, algo curioso — e doloroso — acontece: o afeto pelo toque começa a ser interditado. Muitos pais e cuidadores passam a se sentir desconfortáveis em oferecer colo ou carinho físico, como se isso fosse “coisa de criança pequena”. O recado dado, muitas vezes sem palavras, é que crescer significa não poder mais desejar nem receber esse tipo de proximidade.
O resultado é que o adolescente, ainda carente de afeto, encontra no corpo e no contato físico uma outra forma de se ligar ao outro: a violência. Onde antes caberia o abraço, aparece o empurrão. No lugar do elogio, o deboche. No espaço do brincar, a “trolagem”. Assim, o que deveria ser gesto de cuidado se converte em ato de agressão. A lógica cruel é: só posso tocar no outro se for pela via do ataque, porque o carinho foi censurado.
Na escola, esse bloqueio se mostra com toda força. Um menino e uma menina se abraçam? Logo se ouve: “estão namorando”. Dois meninos se abraçam? A acusação é imediata: “são veados”. A realidade do afeto é, portanto, ainda mais interditada para os meninos — ser carinhoso é visto como fraqueza, vergonha, ameaça à masculinidade. Para eles, o abraço se torna quase impossível, o que intensifica a substituição do afeto pela violência.
Como já apontava Freud, aquilo que é reprimido retorna de outra forma. E aqui, o que retorna é a agressividade, travestida de brincadeira ou de disputa. A repressão do afeto não gera apenas silêncio, mas também marcas duradouras. Muitos carregam essa dificuldade para a vida adulta, reproduzindo relações nas quais a violência ocupa o lugar da ternura. Outros internalizam essa agressividade, voltando-a contra si mesmos, seja em automutilações, seja em discursos de autodepreciação. É a dor de não poder tocar nem ser tocado transformada em ferida na própria pele.
Fica então a reflexão: que espaços temos criado para o afeto nas crianças e nos adolescentes? Será que estamos permitindo que meninos e meninas expressem carinho de forma livre, sem vergonha, sem julgamento? A violência, tão naturalizada, pode estar apenas denunciando um vazio: o vazio do abraço que não foi permitido.
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- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










