
A Pesca com Botos no Sul do Brasil foi reconhecida nesta quarta-feira (11) como Patrimônio Cultural do Brasil. A aprovação ocorreu em reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A atividade foi inscrita no Livro dos Saberes, reconhecendo um conhecimento tradicional profundo, que revela a estreita relação que os pescadores do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul guardam com seu entorno natural.
A Pesca com Botos no Sul do Brasil ocorre em quatro sistemas estuarinos (ecossistemas de transição entre águas doces e salgadas) localizados entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A foz do Rio Tramandaí (RS), entre Tramandaí e Imbé, e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, junto à cidade de Laguna, são os locais de maior frequência e incidência.
A prática pode ocorrer ocasionalmente nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC). No Rio Grande do Sul, a Pesca com Botos é considerada, por lei, como de relevante interesse cultural, desde 2020. Em Santa Catarina, é considerada imaterial pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), desde 2018.
Pesca com botos
O processo, apesar de parecer natural, demanda técnica e conhecimento prévios e específicos dos pescadores, pois os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador a tarefa de decidir quando o cetáceo está auxiliando a pesca e quando não está.
Além disso, é necessário um saber acumulado sobre a natureza, com a qual eles se defrontam cotidianamente na lida da pesca: o movimento dos ventos e das marés; os hábitos dos peixes e dos botos; as peculiaridades da geografia local.
A prática ocorre da seguinte forma: durante a época da pesca, principalmente nos meses de maio, junho e julho, durante o outono, os pescadores aguardam o sinal dos botos. Os animais direcionam o cardume até encurralá-lo em frente aos humanos. Quando isso acontece, o boto salta, e alguns até emitem sons, avisando que esse é o momento certo de jogar a tarrafa.
A pesca cooperativa não ocorre com animais anônimos e genéricos: eles têm nomes próprios, geralmente associados às suas características e habilidades, escolhidos pelos próprios pescadores artesanais.
Botos no Rio Tramandaí

Conforme o Projeto Botos da Barra, do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar/UFRGS), atualmente 13 botos realizam a pesca cooperativa com pescadores na Barra do Rio Tramandaí.
Entre os meses de abril e junho ocorre a temporada da “corrida da tainha” no estuário, quando a chance de ver os botos é ainda maior. “Nesse período, as tainhas migram em grandes cardumes, dos estuários em direção ao mar para desovar — atravessando os estuários e seus canais de maré, como a Barra do Rio Tramandaí”, explica a equipe do Botos da Barra.
O boto-de-Lahille

É uma espécie que habita águas costeiras próximas à zona de arrebentação, baías costeiras e águas adjacentes de estuários e lagoas costeiras nos estados do Sul do Brasil, no Uruguai e em parte da Argentina.
Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille de vulnerável para em perigo de extinção. Estima-se que a população mundial total desses animais seja de cerca de 330 indivíduos, a maioria deles no litoral sul do país.
De acordo com a entidade, as espécies são classificadas em nove grupos, conforme o risco de serem extintas: Pouco Preocupante (LC), Vulnerável (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR) e Extinto (EX).










