
Na última semana falei aqui sobre a adultização de crianças nas redes sociais (mas não só nelas) e sobre a infantilização dos adultos. Esses são apenas fragmentos de um tema complexo, que exigiria muitos textos para darmos conta. Hoje, quero propor um recorte: afinal, o que significa ser adulto?
Pesquisas recentes apontam que o Brasil é um dos países que mais consome pornografia no mundo. E, dentro desse universo, os conteúdos de maior interesse envolvem violência: cenas de abuso, agressões, humilhações.
A impressão que fica – e que também ecoa no vídeo do influencer Felca sobre a adultização – é que, no nosso imaginário social, ser adulto está diretamente associado ao sexo, a falar e fazer sem limites. Mas de onde vem essa noção distorcida de adulto?
Vivemos em uma cultura profundamente atravessada pelo machismo. Uma cultura que coloca o prazer masculino acima de tudo, e a mulher como objeto. E, como objeto, seu destino é servir. Quando não serve, apanha. Quando resiste, morre.
Essa lógica se naturaliza nas pequenas coisas. Quando olhamos para uma mulher de roupa curta e pensamos (ou dizemos) que ela “está pedindo”, estamos reafirmando a ideia de que a violência que ela possa sofrer é responsabilidade dela, e não de quem a agride. Estamos ensinando, a cada comentário, a cada julgamento, qual é o “lugar” do homem e qual é o da mulher.
Ao colocar meninas para rebolar em vídeos na internet, ao oferecer maquiagens em vez de escolhas, ao ensinar que precisam ser delicadas, submissas, princesas, estamos naturalizando a violência. Estamos dizendo, de forma silenciosa, que ser adulta é estar pronta para servir e agradar, ainda que às custas de si mesma.
E isso é tão violento quanto os abusos mais explícitos, porque é na repetição dos gestos cotidianos que educamos nossas filhas para aceitar a desigualdade.
Se ser adulto é apenas reproduzir um imaginário de violência e prazer a qualquer custo, então estamos falhando enquanto sociedade. Precisamos, urgentemente, ressignificar o que é a vida adulta: responsabilidade, autonomia, cuidado consigo e com o outro, a capacidade de viver em comunidade sem oprimir nem violentar.
Ser adulto não é ter poder sobre alguém. É, antes de tudo, saber partilhar esse poder e construir relações mais saudáveis e justas.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










