Inclusão ou Rotulação? O que fazemos com as crianças com laudo nas escolas

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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Imagem meramente ilustrativa. Foto: Mirush_fotografka por Pixabay

TEA, TOD, TDAH… essas siglas já fazem parte do vocabulário cotidiano das escolas. Elas aparecem nas reuniões pedagógicas, nos bilhetes enviados às famílias e nas conversas de corredor entre professores. A impressão que tenho é de que, quando se trata de inclusão, estamos sempre chegando atrasados.

A maioria dos diagnósticos na infância parte de uma suspeita escolar: “seu filho não para”, “não aprende”, “não acompanha a turma”, “precisa investigar”. A família, aflita, busca um neuropediatra, faz testagens e, em pouco tempo, chega a um laudo. Esse documento, então, é entregue à escola — e o que acontece depois? Na maioria das vezes, muito pouco ou quase nada.

A criança com laudo recebe um rótulo. E só.

Passa a sentar na frente, em alguns casos ganha algumas adaptações nas atividades e segue seu caminho escolar carregando um papel que diz mais sobre o que ela não consegue do que sobre o que ela pode. O laudo, que deveria abrir caminhos, muitas vezes fecha portas invisíveis.

Mas o que é, afinal, inclusão?

Incluir não é apenas garantir matrícula ou cumprir a legislação. É olhar para o sujeito — e não para o diagnóstico —, reconhecendo suas singularidades e possibilidades. É perceber que, mesmo sob a mesma sigla, cada criança é um mundo. Que o TEA de um não é o TEA de outro. Que o que está em jogo não é o laudo em si, mas o modo como o adulto o lê.

É claro que não é fácil. A realidade das escolas é árdua: turmas com mais de vinte crianças, pelo menos cinco com diagnósticos confirmados e outras tantas que não aprendem no ritmo esperado. É legítimo o cansaço de professores que se desdobram entre o ideal da inclusão e a falta de recursos para sustentá-la.

Mas talvez devamos nos perguntar: será que a forma tradicional de ensinar ainda dá conta dos novos sujeitos? Essa é uma reflexão que merece um texto à parte — e fica como tema para um próximo artigo.

Para além das técnicas e das metodologias, toda criança — com ou sem laudo — precisa ser olhada. Precisa de um adulto que a conquiste, que enxergue nela o possível, e não apenas o problema. Que possa, junto com ela, construir pontes.

Do lugar do consultório, vejo diariamente o quanto o olhar do outro molda o que uma criança se torna. Quando o adulto enxerga apenas o déficit, o que retorna é o fracasso. Quando o adulto se autoriza a ver potência, algo novo se inaugura.

Para além das técnicas e estratégias em sala de aula, o que realmente precisa acontecer é o vínculo. É o professor se interessar de verdade pelo aluno, chegar perto, escutar, conhecer suas formas de dizer e de aprender. Aprendemos pelo amor — e não há método que substitua isso. Quando o vínculo se estabelece, é ali que mora o aprendizado, é dali que nasce a potência. Aquele aluno que antes era visto como “problema” passa a ser o aluno que participa, que cria, que brilha os olhos. O que transforma não é apenas o recurso pedagógico, mas a presença de um adulto que acredita, que se envolve e que faz da relação o primeiro instrumento de ensino.

Se nós, que somos os espelhos, só vemos o problema — é o problema que vai se revelar.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

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