Entre a folia e o limite: O Carnaval e o mal-estar que insiste

Entre a folia e o limite: O Carnaval e o mal-estar que insiste

Por Juliana Ramiro, psicanalista – colunista sobre saúde mental

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Carnaval. Foto: Pixabay

Carnaval é sinônimo de alegria. É dança, música alta, glitter no corpo, suor misturado com purpurina. É encontro, riso solto, beijos que começam e acabam na mesma noite. É também bebida, excesso, fantasia — no sentido literal e simbólico. Durante alguns dias, parece que o mundo suspende as regras e nos autoriza a viver o prazer de maneira mais intensa.

Mas é preciso dizer com todas as letras: a diversão de uns não pode ser construída às custas da violência contra outras.

Se para muitos homens o Carnaval é sinônimo de “pegação”, para muitas mulheres é sinônimo de alerta. A cada bloco, a cada aglomeração, a cada abordagem, paira a pergunta silenciosa: vou conseguir me divertir ou vou precisar me defender? Essa tensão revela algo que vai muito além da festa.

O abuso não começa apenas no ato extremo. Ele começa na desconsideração do limite, no toque que não foi consentido, na insistência após a recusa, na ideia de que o corpo da mulher, em um ambiente festivo, torna-se território público. Há quem diga: “Ah, mas é Carnaval”, como se a data no calendário suspendesse o direito ao consentimento. Não suspende. O “não” continua sendo não. A fantasia não é autorização. A roupa não é convite. A dança não é contrato.

A psicanálise nos ajuda a compreender que o limite é uma construção civilizatória. Não nascemos sabendo respeitar o outro. Somos atravessados por impulsos, desejos e pulsões que buscam satisfação. O trabalho da cultura é justamente colocar freios nesses impulsos para que possamos viver em sociedade.É nesse ponto que a reflexão de Sigmund Freud, especialmente em O Mal-Estar na Civilização, se torna atual. Ao afirmar que a civilização exige renúncias pulsionais, Freud nos lembra que viver em coletividade implica abrir mão de fazer tudo o que se deseja. Essa renúncia não é confortável; ela produz mal-estar. Mas é o preço da vida comum.

É comum ouvir a justificativa de que a bebida “fez a pessoa perder o controle”. O álcool, de fato, pode rebaixar as barreiras psíquicas e enfraquecer aquilo que chamamos de superego, essa instância que internaliza normas e proibições sociais. Com menos censura interna, o sujeito pode agir de forma mais impulsiva.

No entanto, é fundamental compreender que o álcool não cria a violência do nada. Ele pode facilitar a passagem ao ato daquilo que já estava presente: a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito, a crença na própria autorização, o desprezo pelo limite alheio. Transferir para a bebida a responsabilidade é evitar o confronto com a própria agressividade.

Quando alguém decide que não quer pagar o preço civilizatório da renúncia, outra pessoa acaba pagando com o próprio corpo. E historicamente são as mulheres que ocupam esse lugar. Não estamos falando de moralismo, nem de negar o prazer ou a liberdade que o Carnaval pode proporcionar. Estamos falando de ética e de consentimento. Liberdade sem limite não é liberdade, é imposição.

Freud foi contundente ao afirmar que a cultura se sustenta em acordos que contêm a violência. Sem isso, viveríamos sob a lógica da força. O respeito talvez não seja espontâneo, mas precisa ser aprendido, exercitado e reafirmado. Se o mal-estar é inevitável, que ele seja o mal-estar de conter a própria impulsividade e não o mal-estar de quem foi invadida, silenciada ou culpabilizada.

O Carnaval pode e deve ser espaço de alegria compartilhada. Beijar, dançar, fantasiar-se, ocupar as ruas, tudo isso faz parte da potência da festa. O que não pode fazer parte é a naturalização da violência. Que a folia não seja desculpa para a barbárie. Que a civilização não seja apenas uma palavra bonita nos livros, mas um exercício cotidiano de reconhecimento do outro como sujeito de direitos.

Respeitar limites talvez não seja instintivo, mas é um caminho civilizatório – no Carnaval e no resto do ano.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

  • Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br

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