
Criar uma criança com liberdade ainda desperta olhares desconfiados. Não raro escutamos comentários como: “Essa criança faz muita manha”, “Esses pais são fracos”, ou ainda “Está faltando limite”. A ideia de liberdade na infância costuma ser confundida com ausência de autoridade. Mas, na prática clínica e na vida cotidiana, percebemos que a questão é bem mais complexa — e também mais potente.
Liberdade na infância não significa deixar a criança fazer tudo o que quer. Significa oferecer espaço para que ela experimente, descubra e comece a reconhecer o próprio desejo. E isso dá trabalho. Porque uma criança que pode experimentar também protesta, insiste, testa caminhos, pergunta “por quê?”. Ela se movimenta no mundo.
Na psicanálise, desde Freud, sabemos que o sujeito se constitui justamente nesse encontro entre desejo e limite. A criança precisa de contornos, claro, mas também precisa de espaço para que algo do seu desejo apareça. Quando tudo é antecipadamente proibido, cortado ou controlado, o que se forma muitas vezes é uma criança excessivamente adaptada, que aprende a obedecer, mas não necessariamente a pensar, escolher ou negociar.
No consultório, costumo fazer uma pergunta simples aos pais quando surge alguma angústia diante de comportamentos típicos da infância: “Vocês acham que, com 18 anos, ele ainda estará fazendo isso?”
Se a resposta for não, e quase sempre é, talvez estejamos apenas diante de uma etapa do desenvolvimento. Uma fase de experimentação. Uma tentativa de entender o mundo e os próprios limites dentro dele.
Crianças que tiveram alguma liberdade ao longo do crescimento costumam carregar uma experiência muito importante: a de que podem tentar. Que podem errar, ajustar, negociar. Elas aprendem a lidar com frustrações reais, não apenas com proibições impostas de fora.
Isso não elimina a presença dos adultos, pelo contrário. Educar com liberdade exige pais atentos, disponíveis e implicados. É um trabalho constante de escuta, diálogo e mediação. Não é ausência de limite, mas construção de limites que fazem sentido.
Uma criança que pode experimentar tende a chegar à vida adulta com mais recursos internos. Ela reconhece melhor o que deseja, tolera melhor as frustrações e consegue negociar com o mundo sem sentir que qualquer obstáculo é uma ameaça à sua existência.
Talvez o maior desafio para os adultos seja justamente suportar esse processo. Suportar a bagunça, as tentativas, os tropeços inevitáveis do crescimento. Educar para a liberdade exige algo que nem sempre é fácil: confiar no tempo do desenvolvimento.
No fim das contas, criar filhos não é formar uma personalidade perfeita. É acompanhar a construção de um sujeito. E sujeitos precisam de espaço para existir.
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- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










