
Nos últimos dias, circularam nas redes sociais relatos e vídeos de pessoas que viveram situações de confinamento após a morte de alguém querido, como muitos de nós na pandemia. E o assunto voltou à tona. Por isso, decidi escrever sobre ele. São depoimentos que impressionam pela intensidade e pela força com que nos atravessam. Pessoas que, após a perda, permanecem recolhidas, narrando o cotidiano em forma de diário, como se o isolamento fosse a única forma possível de suportar a dor.
O que esses relatos nos mostram? Que o luto não é apenas um momento de tristeza, mas uma experiência que desorganiza a vida psíquica. O sujeito perde não só a pessoa, mas também uma parte de si — e, junto, a rotina, os vínculos, os projetos. A psicanálise nos ensina que o luto é um trabalho psíquico, no qual precisamos, pouco a pouco, retirar o investimento libidinal do objeto perdido para poder viver outras experiências. Mas nem todos conseguem realizar esse processo sozinhos.
O isolamento, nesses casos, aparece como uma defesa: a tentativa de paralisar o tempo para não precisar encarar a vida sem o outro. É como se fechar a porta do mundo fosse também tentar fechar a ferida. Mas sabemos que a dor, assim, não desaparece; ao contrário, pode se cristalizar, transformando-se em sintoma — depressão, pânico, ansiedade.
Escrever um diário, gravar vídeos ou dar testemunho pode ser um gesto importante de simbolização. Ao colocar em palavras aquilo que dói, o sujeito dá um primeiro passo para transformar a experiência bruta em narrativa. E a narrativa, ainda que dolorosa, abre espaço para que o luto seja vivido e, eventualmente, elaborado.
Vivemos em uma sociedade que não suporta falar da morte. Tudo é velocidade, performance, espetáculo. Mas quando alguém se recolhe e compartilha sua dor, nos vemos obrigados a lembrar de algo essencial: todos somos frágeis, todos passaremos pelo luto. E, nesse espelho, encontramos nossa própria vulnerabilidade.
Talvez por isso esses vídeos e relatos tenham ganhado tanta repercussão. Eles escancaram o que tentamos esconder: que, diante da morte, somos pequenos, e que não existe “atalho” para a dor. O único caminho possível é atravessá-la.
O confinamento pode ser um início, mas nunca deve ser o fim. O sujeito precisa, aos poucos, retomar a vida, investir em novos laços, confiar novamente no mundo. É nesse movimento que o luto deixa de ser prisão para se tornar memória. E que a dor dá lugar, aos poucos, a novas possibilidades de viver.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










