
Não é de hoje que um banho de mar no Litoral Norte do Rio Grande do Sul pode ser subtamente interrompido por uma sensação de ardência e queimação na pele de quem entrou em contato com animais marinhos como a água-viva. Nos últimos dias, porém, houve aumento no número de registros de outras duas espécies do tipo: a caravela-portuguesa e o dragão-azul. O fato, no entanto, parece não representar maior risco iminente aos banhistas.
Leitores do Litoral na Rede procuraram a reportagem do portal de notícias e encaminharam imagens de registros feitos durante a semana em diversas praias da região. A situação vem causando preocupação em banhistas que desconhecem ambas espécies e acabam tocando-as, em muitos casos atraídos pela beleza do colorido destes animais, fato que pode ocasionalmente provocar queimaduras.
Especialista em Biologia e Biogeografia de Invertebrados Marinhos, a professora do curso de Biologia Marinha do Campus Litoral Norte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carla Menegola, explica há três espécies distintas sendo observados na costa gaúcha, sendo que duas delas são colônias flutuantes de vários indivíduos que se assemelham a uma água-viva — que é um indivíduo único.
“A Porpita porpita, colônia pequena da classe Hydrozoa, é muito comum nas praias no verão, assim como a caravela-portuguesa (Physalia physalis). Já o nudibrânquio, molusco com brânquias expostas na superfície do corpo, conhecido popularmente como dragão-azul, é um parente de outros moluscos conhecidos, como caracóis, caramujos e lesmas, mas tem hábito de surfar nas correntes, na superfície da água, enquanto os outros vivem associados ao fundo marinho”, explica.
Todas essas espécies são comuns na costa brasileira e em outros países do Atlântico, explica a professora. No verão, as correntes associadas à época de eclosão ou liberação de ovos ou gametas na água determinam essa chegada abundante de organismos nas praias.
“Todas as águas-vivas podem causar queimaduras pelas toxinas que possuem, com sintomas mais ou menos acentuados, a depender da espécie ou da sensibilidade individual das pessoas. Já o dragão-azul absorve toxinas das águas-vivas ao alimentar-se delas, incorporando as toxinas em sua epiderme”, detalha Carla, que acrescenta que a aparição dos animais tem se tornado comum durante o ano todo: “Inclusive no inverno. As pessoas não estão na praia nesse período, por isso não os veem”, complementa.

Mas diante dos riscos e dos alertas, ainda há pessoas que desconhecem os procedimentos prioritários para atender uma situação de queimadura por uma destas espécies. Esfregar o local com as mãos ou mesmo molhá-lo com urina, como muita gente equivocamente sugere, são gestos totalmente desaconselhados.
“Ao ser queimado, é importante não lavar com água doce, somente com água do mar, sem esfregar a pele. Colocar vinagre de álcool pode acalmar a dor e ardência, mas o mais indicado é sempre procurar ajuda médica, caso os sintomas persistam”, indica Menegola.
Número de lesões diminuiu
Divulgado na noite desse domingo (28), o mais recente balanço de atendimentos realizados pelos guarda-vidas na 7ª Operação Verão do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) mostrou que, apesar do crescimento de registros destes animais na costa gaúcha, o número de casos de lesões provocadas pelo contato direto com as espécies caiu consideravelmente em relação à temporada passada.
Até o momento, 29.201 casos foram registrados nas praias do Litoral Norte gaúcho. No mesmo período do ano passado foram 50.096, o que representa uma redução de aproximadamente 41%. O órgão, no entanto, destaca que não há, até o momento, relatos de lesões provocadas especificamente por dragões-azuis ou caravelas-portuguesas.
“Nós encontramos vários desses animais na orla, mas não temos, por enquanto, qualquer registro específico de caravela-portuguesa ou dragão-azul. Acredito que eles estão chegando já mortos à costa, sem toxicidade ativa, ou que as pessoas que sofrem queimaduras não saibam diferenciar qual animal foi responsável por isso”, explica o coordenador operacional da Operação Verão do CBMRS, major Daniel Moreno.