
A resposta parece óbvia: não. Mas, na prática, quantas vezes dizemos sim a essa pergunta — mesmo sem perceber? Quando educamos nossos filhos, quando opinamos sobre políticas sociais, quando nos relacionamos no trabalho ou em casa. Muitas vezes reproduzimos dores que herdamos, tentando, de forma inconsciente, justificar as nossas próprias feridas.
Quantas vezes você ouviu — ou até disse — algo como: “eu apanhei e não morri, estou aqui, bem criado, por isso minha filha precisa apanhar para ser como eu”? Essa frase, que parece apenas um eco de uma educação mais rígida, carrega uma lógica perversa: a de que, se houve sofrimento em minha história, ele precisa ser validado. E uma forma de validar é repetir — fazer com o outro o que fizeram comigo.
A psicanálise nos ajuda a entender esse movimento. Freud já dizia que o sujeito tenta, de forma ativa, reviver aquilo que viveu passivamente. O filho que apanhou, se torna o pai que bate, pois assim sai do lugar de quem sofreu para ocupar o de quem controla. É uma defesa psíquica, uma tentativa de não sentir novamente o medo, a humilhação, a impotência.
O problema é que essa repetição não cura. Pelo contrário, aprofunda feridas e perpetua violências. E isso não se restringe à vida familiar. É a professora que cobra demais porque “só assim será respeitada”. É o chefe que oprime porque, um dia, foi oprimido. É o adulto que ridiculariza políticas de inclusão porque precisou lutar sozinho. É o abusado que se torna abusador.
Como disse o psiquiatra Gabor Maté, “nós respondemos ao mundo com a nossa ferida”. Enquanto não olharmos para ela, com mais verdade e coragem, seguiremos causando dor no outro como forma de anestesiar a nossa. Mas há outro caminho.
A cura começa quando escolhemos interromper o ciclo. Quando decidimos educar sem violência. Quando abrimos espaço para o afeto, o cuidado, o vínculo saudável. Quando reconhecemos que nossos pais fizeram o que podiam — mas que nós podemos fazer diferente.
Ao fazer isso, também nos curamos. Porque se é verdade que quem tira a vida do outro perdeu parte da sua, também é verdade o oposto: quem dá vida, afeto, escuta, segurança ao outro, reencontra a própria humanidade.
Nesta semana, te convido a refletir sobre outras formas possíveis de vínculo no episódio do Psi Por Aí, no qual converso com Anelise Flôres, pedagoga, pesquisadora das infâncias e educadora parental. Vale a pena conferir!
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- Juliana Ramiro é psicanalista, doutora em Letras, e uma apaixonada por música e literatura. E-mail: admin@julianaramiro.com.br










